The Blame Is On Me - Continuação do texto "A Rendição Condicional De Clarice"
Permaneci ali, parado, eu já não ouvia mais os passos calmos e pequenos de Clarice, fui tomado por um horrível sentimento amargo, e vazio, atingindo meu estomago e agudamente o meu peito. Cogitei por alguns instantes em ir atrás dela, em acreditar que isso poderia causar um milagre, ou algo parecido. Não há nós, não a vontade nesse mundo que encaixe duas peças que não se conectam, e ainda mais, peças que escolhem seu próprio, essas são quase intocáveis. Apoiei as mãos atrás da cabeça, em busca de algum ponto de lucidez em minha mente, que pudesse me conter nesse grande momento. Eu perdi Clarice, e de propósito, por que isso me incomoda? Não conseguimos dar certo juntos, e ainda, sim, sinto como se isso fosse o maior erro da minha vida, por quê? Eu sucumbi em um mau súbito imaginário, que dominou parte dos meus sentidos por alguns instantes, minha mente me levou embora, para algum lugar.
Me apoiei na cama, me jogando de costas em seguida, deitando com muito desgosto enquanto lembrava do último sorriso que Clarice havia me dado, estávamos na cozinha, conversando sobre as minhas incapacidades sociais, e como fui capaz de conquistar Clarice, com ela sendo o total oposto de mim, e ela ria disso, pois de acordo com ela, era incompreensível para ela não me amar, como era algo natural, que ela vivia sem devaneios, quase como respirar. Eu a olhei, por um instante me senti bem com isso, mas em seguida, eu a olhei, sério, e ela percebeu algo de errado, e foi aí, onde toda essa conversa que nos ocorreu, fez com que Clarice, em um movimento frio, aceitasse o meu lado. Ela me ouviu, eu queria tanto entender o porquê ela nunca foi capaz de simplesmente nos aceitar em um relacionamento nosso, e não como um peso em sua vida. Ela decidiu, bem ali, na minha frente, a resposta para as minhas perguntas. E eu estou aqui agora, com mais um questionamento sem fundo, por que você foi embora? Era o que eu queria, eu queria uma resposta, e agora eu me desfiz do meu ódio por isso, a minha âncora dolorosa, mas que me mantinha com Clarice, eu sou livre? Eu era livre antes disso? Ela era? Por que foi a melhor escolha para ela, simplesmente ir embora?
Me lembrei das mãos de Clarice em meu cabelo, segundos antes de sair por aquela maldita porta, consigo sentir suas pequenas mãos em mim, a leveza dos seus pés, nas grossas meias azuis que lhe dei, com um casaco preto, tão grande quanto as meias, e seu cabelo preto, liso, escorrendo diante de uma pele branca, branca como uma nuvem recém-formada. E eu? Uma alma negra, de cabelos pretos, olhos também pretos, pois não ando dormindo direito. Eu sou como uma sombra, escuro, silencioso, dependendo do dia posso até ser um momento de descanso para alguém, mas logo as minhas vontades se vestem de inconveniência, e minhas mãos se fecham dentro do meu cabelo, e eu de algum modo sou capaz de não me sentir surpreso de isso ter acontecido.
Eu posso ter perdido Clarice, como já perdi muitas coisas que transformei em importante em minha vida, mas o que todas essas situações me trouxeram em comum, é que nunca foram importantes o suficiente para por um fim em tudo, e que permaneça assim até o meu caixão ser construído, e até lá, pode ser que uma nova Clarice me apareça (e apareceu, seu nome, mais para frente soube que seria, Samie), ainda sou jovem, ainda sou sorrateiro diante do mundo, corro pelos becos não movimentados, correndo diante da sorte de que não irei ser alcançado pelas escuridões desses becos, sendo que já fui há tempos, mas finjo que não. Sou jovem, sou malcriado, muitas vezes comigo mesmo, mas é assim a cronologia da vida, e assim seguirei ela, com a verdade mais sólida possível ao meu lado: A morte.
M.


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